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De onde vem o tiro

Martha Medeiros

“Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo/sem saber o calibre do perigo/eu não sei de onde vem o tiro”. Com estes versos começa a música O Calibre, que abre o novo disco dos Paralamas do Sucesso. Uma boa letra, que reflete a vulnerabilidade geral. Hoje estou aqui escrevendo, mas amanhã um tiro pode me subtrair, e olha que eu nem moro nos arredores de Washington.

Você lerá esta crônica quase uma semana depois de ela ter sido escrita. Como a polícia norte-americana é reconhecida por sua eficiência, há uma razoável chance de o franco-atirador, que até agora matou aleatoriamente nove pessoas, já estar preso enquanto você lê este jornal. No entanto, pra mim ainda é dia 15, ele ainda está solto, ele ainda é uma ameaça para os moradores da capital dos Estados Unidos, ele ainda faz a população se recolher em casa, já que ninguém por lá sabe de onde vem o tiro. Eu e você ao menos sabemos de onde ele vem.

Nosso caso é um pouco diferente. Não há um psicopata à solta usando a gente pra treinar tiro ao alvo, nossa violência não tem esses refinamentos: um único disparo, uma van branca, recompensas em dinheiro. Nosso tiro vem de uma arma roubada, de um moleque drogado, de um assalto besta em que a gente se assustou, deixou o carro engatado, o moleque desconfiou e, por estar com mais medo que nós, apertou o gatilho: bang.

Nosso tiro vem da estrada, vem de uma sinalização deficiente, de um buraco fundo no asfalto, de um acostamento que não existe, de um motorista alcoolizado que entra em pista dupla: lá vem ele na contramão, à bala.

A gente sabe de onde vem o tiro. O tiro vem de uma série de omissões, o tiro vem do desvio de verbas e do desvio de vidas, o tiro vem da falta de investimentos em segurança, o tiro vem do crescimento do tráfico de drogas, o tiro vem do fácil acesso às armas, o tiro vem da deseducação, do stress, da histeria coletiva. Que saudade quando “dar um tiro” era apenas uma gíria para cantada.

Os moradores de Washington estão passando por uma crise momentânea de insegurança, estão reféns de uma única e alucinada criatura, e contando os dias para ter sua normalidade de volta. Terão, cedo ou tarde. Nós, a menos que muita coisa mude nesse país, continuaremos na mira.


Domingo, 20 de outubro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.